O traço humano da pandemia de COVID-19
Nesta edição número 100 da Feedback, decidimos recuperar aquela que permanece como uma das histórias mais impactantes em 10 anos: a do enfermeiro sul-coreano Oh Young-jun, profissional dos cuidados intensivos que transformou os corredores de isolamento da pandemia em desenhos profundamente humanos e emocionais, mais tarde cedidos à APHP como testemunho visual de um dos períodos mais duros da história recente da saúde mundial.
Em plena pandemia de Covid-19, enquanto o mundo acompanhava diariamente números de infeções, internamentos e mortes, Oh Young-jun escolheu mostrar aquilo que as estatísticas nunca conseguiram revelar: o silêncio exausto dos profissionais de saúde, os gestos invisíveis da enfermagem e a humanidade escondida por detrás dos equipamentos de proteção individual.
Enfermeiro de cuidados intensivos num hospital de Incheon, na Coreia do Sul, Oh vivia dias e noites dentro das enfermarias de isolamento destinadas aos doentes infetados pelo coronavírus. Vestido com fatos de proteção integral, máscaras N95, viseiras e múltiplas camadas de luvas, enfrentava jornadas longas e emocionalmente devastadoras. Mas, quando regressava ao isolamento do seu apartamento, pegava numa caneta digital e desenhava.
Os seus trabalhos rapidamente começaram a circular nas redes sociais e a conquistar profissionais de saúde em vários países. Não eram ilustrações heroicas nem retratos épicos. Eram cenas íntimas, quase silenciosas: uma enfermeira adormecida numa cadeira após horas de trabalho; mãos feridas pelo uso contínuo do equipamento de proteção; um colega a transportar baldes de resíduos biológicos; ou o instante de tensão em que uma pequena rutura numa luva fazia temer o contágio.
Nos desenhos de Oh, a cor surgia raramente. Muitas vezes apenas nos olhos dos profissionais, visíveis entre a máscara e a viseira. Era aí que residia toda a humanidade daqueles rostos anónimos.
A história ganhou ainda maior força porque nascia de dentro da própria realidade hospitalar. Oh não desenhava aquilo que imaginava. Desenhava aquilo que vivia. Entre os pacientes que acompanhou estavam uma mulher de 93 anos com demência e um homem com insuficiência renal crónica que fazia diálise há 25 anos antes de contrair Covid-19. Ambos sobreviveram, graças ao trabalho contínuo das equipas médicas e de enfermagem.
A relação de Oh com a arte é muito anterior à pandemia. Gosta de desenhar desde criança e estudou pintura coreana tradicional com especialização em paisagens, formação que abandonou ao perceber as dificuldades de construir carreira como artista. Inspirado por Florence Nightingale, optou pela enfermagem. Ainda assim, nunca deixou de desenhar.
No final do ano de 2020, em função da necessidade de ilustrar a vida hospitalar durante a pandemia, a APHP encontrou os seus desenhos na MSJC Art Gallery de São Jacinto – Pasadena, nos Estados Unidos da América.
A sua extraordinária capacidade de revelar a dimensão humana da enfermagem levou a APHP a destacar, na altura, o trabalho do enfermeiro-artista. Os desenhos foram cedidos à associação e apresentados como um poderoso documento visual sobre os bastidores da pandemia e sobre o papel dos profissionais de saúde na linha da frente.
Hoje, ao revisitar esta história na edição 100 da Feedback, a APHP recupera não apenas uma memória da pandemia, mas também um símbolo de resiliência, humanidade e dedicação profissional. Porque, enquanto o mundo atravessava um dos momentos mais sombrios da sua história recente, Oh Young-jun, hoje com 40 anos de idade, encontrou no desenho uma forma de cuidar, testemunhar e eternizar aquilo que nunca deveria ser esquecido. Obrigado, Oh!

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