Talento será o principal fator de sustentabilidade dos sistemas de saúde

Talento será o principal fator de sustentabilidade dos sistemas de saúde

A escassez de profissionais de saúde e a capacidade de atrair e reter talento são o maior desafio para a sustentabilidade dos sistemas de saúde em Portugal e Espanha, de acordo com Salvador Sanchis, diretor de Pessoas e Organização da Ribera Salud, que dissertou na V Cimeira Ibérica de Hospitais Privados.

Na sua intervenção, que precedeu um debate de administradores hospitalares, sublinhou que o problema deixou de ser apenas financeiro, tecnológico ou regulatório e passou a centrar-se na gestão de profissionais num contexto de défice estrutural de médicos e enfermeiros em toda a Europa.

O orador alertou que a União Europeia enfrenta uma falta de 1,2 milhões de profissionais de saúde e que mais de um terço dos médicos deverá reformar-se na próxima década. Apesar de Portugal e Espanha apresentarem rácios globais relativamente favoráveis em algumas áreas, referiu que persistem dificuldades crescentes para preencher especialidades, garantir cobertura em determinados territórios e assegurar escalas de trabalho.

Tendo a Ribera Salud experiência na gestão de hospitais em ambos os países, incluindo o Hospital de Cascais, este responsável defendeu que a concorrência pelo talento deixou de ser nacional para passar a ser europeia e, em alguns casos, global. Segundo afirmou, os profissionais valorizam hoje fatores como a flexibilidade, o desenvolvimento profissional, o bem-estar, a qualidade da liderança e o propósito das organizações, mais do que apenas as condições salariais.

A intervenção destacou ainda o impacto do desgaste profissional, lembrando que Portugal registou, em 2024, cerca de 18 milhões de horas extraordinárias na saúde, com um custo de 465 milhões de euros, situação que considerou insustentável a longo prazo. Salientou também que a inteligência artificial e a digitalização transformarão profundamente as competências exigidas aos profissionais, defendendo que o maior desafio será preparar as equipas para trabalhar com estas novas tecnologias.

O responsável abordou igualmente desafios específicos dos dois países, como o absentismo crescente e a rigidez regulatória em Espanha, bem como a emigração histórica de profissionais de saúde e a necessidade de uma maior estabilidade no planeamento dos recursos humanos em Portugal. Na sua perspetiva, a experiência dos modelos de colaboração público-privada demonstra que os profissionais valorizam sobretudo a cultura organizacional, a liderança e as oportunidades de desenvolvimento, independentemente da natureza jurídica da instituição.

Concluindo a sua intervenção, defendeu que as organizações devem deixar de encarar as pessoas como “recursos humanos” para as assumirem como a sua principal estratégia. “O futuro não será uma guerra entre saúde pública e privada pelo talento, mas entre organizações atrativas e organizações que deixaram de o ser”, afirmou, sublinhando que a sustentabilidade dos sistemas de saúde dependerá da capacidade de criar ambientes onde os profissionais queiram construir carreiras duradouras.

 

Gestão personalizada de pessoas dominou o debate

A escassez de profissionais de saúde, a retenção de talento e o impacto transformador da inteligência artificial marcaram o terceiro painel da V Cimeira Ibérica de Hospitais Privados, dedicado às pessoas e à organização de unidades de saúde. Reunindo líderes de algumas das principais organizações privadas de Portugal e Espanha, o debate evidenciou que o maior desafio do setor deixou de ser apenas recrutar profissionais, passando a centrar-se na criação de ambientes de trabalho capazes de atrair, desenvolver e fidelizar pessoas.

Olga Ginés, gerente do Hospital Ruber International, defendeu uma mudança de paradigma na gestão de profissionais de saúde, substituindo modelos uniformes por abordagens cada vez mais personalizadas, adaptadas às diferentes fases da vida e às expectativas das novas gerações. A flexibilidade contratual, a mobilidade interna, os planos de carreira, a formação contínua, o bem-estar emocional e a qualidade da liderança foram apontados, por Pedro Marcelino, CEO da Sanfil Medicina, como fatores decisivos para manter médicos, enfermeiros e outros profissionais no setor privado.

Isabel Vaz, CEO da Luz Saúde, destacou a aposta estratégica do grupo na formação dos profissionais do futuro, através da parceria com a Universidade Católica para o primeiro curso privado de Medicina em Portugal e do desenvolvimento do maior programa de internato médico do setor privado nacional. Defendeu ainda que a investigação, o ensino e o chamado “salário emocional” – a possibilidade de trabalhar numa organização alinhada com valores éticos e de elevada qualidade clínica – são hoje elementos fundamentais para atrair e reter talento.

Ao longo do debate foi igualmente sublinhado que o setor privado dispõe de maior capacidade para reconhecer o mérito individual e oferecer percursos profissionais diferenciados, embora continue a competir diretamente com os sistemas públicos pela captação de profissionais. Os intervenientes concordaram que a retenção dependerá cada vez mais da qualidade da liderança e da capacidade de proporcionar desenvolvimento profissional, e não apenas da remuneração.

O debate terminou com uma reflexão sobre o impacto da inteligência artificial na organização dos cuidados de saúde e nas competências exigidas aos futuros profissionais. Isabel Vaz alertou que a tecnologia irá alterar profundamente a formação médica, os modelos assistenciais e a distribuição das funções entre diferentes profissionais, defendendo que este é “o verdadeiro desafio existencial do setor”, exigindo uma preparação estratégica desde já para garantir que as novas gerações estejam aptas a responder à transformação em curso.

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