Obesidade: tratar melhor e de forma mais sustentável
A obesidade é um dos grandes desafios de saúde pública do nosso tempo. E é um desafio que Portugal não pode continuar a encarar apenas como uma questão individual, relacionada com hábitos alimentares ou estilos de vida. Estamos perante uma doença crónica, complexa e multifatorial, com consequências muito significativas para a saúde das pessoas, para a organização dos cuidados e para a sustentabilidade do sistema de saúde.
Os números ajudam a perceber a dimensão do problema. Segundo dados do INE divulgados em 2025 e referentes a 2022, 37,3% dos adultos portugueses apresentavam excesso de peso e 15,9% obesidade. Isto significa que mais de metade da população adulta portuguesa – 53,2% – tinha excesso de peso ou obesidade. A prevalência aumenta com a idade, sobretudo depois dos 45 anos, e é particularmente elevada entre as pessoas com menores níveis de escolaridade.
A obesidade está também associada a um conjunto muito relevante de outras patologias, incluindo diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doença cardiovascular, apneia do sono, osteoartrose e diversos tipos de cancro. Prevenir e tratar a obesidade significa, portanto, atuar também sobre algumas das doenças que mais pressionam atualmente os sistemas de saúde.
É precisamente por isso que precisamos de mudar a forma como olhamos para este problema.
A obesidade deve ser abordada como aquilo que é: uma doença crónica que exige prevenção, diagnóstico precoce, acompanhamento continuado e uma resposta multidisciplinar. Alimentação, exercício físico e intervenção comportamental continuam a constituir pilares fundamentais. Mas a evolução científica e tecnológica trouxe igualmente novas possibilidades terapêuticas, desde a terapêutica farmacológica às técnicas endoscópicas e à cirurgia metabólica e bariátrica, quando clinicamente indicadas.
Não existe, por isso, uma resposta única para todos os doentes. O caminho deverá passar cada vez mais por modelos assistenciais integrados e personalizados, capazes de combinar diferentes intervenções ao longo do percurso da pessoa. Mais do que escolher entre prevenção, medicamento ou cirurgia, importa colocar o doente no centro e utilizar, em cada momento, a solução que produza maior benefício clínico e qualidade de vida.
Há, contudo, uma segunda dimensão que não podemos ignorar: o impacto económico da obesidade.
Quando avaliamos uma intervenção em saúde apenas pelo seu preço imediato, corremos o risco de confundir custo com valor. Uma terapêutica pode representar hoje uma despesa significativa e, simultaneamente, evitar amanhã diabetes, eventos cardiovasculares, internamentos, incapacidade, absentismo laboral e outros custos sociais e económicos. É esta visão de médio e longo prazo que deve orientar cada vez mais as decisões em saúde. Se é verdade que o tema passou para a opinião pública devido aos medicamentos inovadores que foram colocados no mercado, a oportunidade não deve ser perdida para discutir a obesidade como um todo, na perspetiva do cidadão, do médico e do sistema de saúde.
Na perspetiva das instituições privadas, a questão da obesidade é cada vez mais presente, nomeadamente porque são cada vez mais procuradas por pessoas com obesidade e dispõem de equipas diferenciadas, tecnologia e capacidade para desenvolver percursos assistenciais multidisciplinares. Têm, por isso, não apenas um papel clínico, mas também uma responsabilidade na procura de modelos de cuidados que conciliem qualidade, resultados e sustentabilidade.
É com esta perspetiva que a APHP dedicará atenção especial ao tema no seu 2.º Encontro Clínico, no próximo dia 22 de outubro, em Lisboa. Queremos discutir a obesidade para além da perspetiva exclusivamente clínica. Queremos falar de prevenção e tratamento, mas também de organização dos cuidados, resultados, inovação e sustentabilidade económica.
Porque este é, no fundo, um excelente exemplo de um dos grandes desafios que temos pela frente na saúde: ser capazes de investir hoje em melhores resultados para os doentes e, através deles, construir sistemas de saúde mais sustentáveis.
Conselho Clínico da APHP
José Roquette | Presidente | Luz Saúde;
Leopoldo Matos | Vice-Presidente | Lusíadas Saúde;
Eduardo Mendes | Secretário | CUF Saúde;
Adriano Rodrigues | Vogal | Sanfil Medicina;
Dina Carvalho | Vogal | Hospital Terra Quente;
Eduarda Reis | Vogal | Lusíadas Saúde;
José Vila Nova | Vogal | Trofa Saúde;
Paulo Sousa | Vogal | CUF Saúde;
Rui Pinto | Vogal | Hospital Santa Maria do Porto.

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