Portugal no Health at a Glance 2025: retrato de um sistema sob pressão

Portugal no Health at a Glance 2025: retrato de um sistema sob pressão

A edição de 2025 do Health at a Glance foi publicada a 13 de novembro, e, em relação a Portugal, os dados revelam um sistema que combina bons resultados globais em longevidade com fragilidades significativas no financiamento, no acesso e na organização dos cuidados, especialmente fora do hospital.

Este relatório, lançado anualmente, apresenta um retrato detalhado dos sistemas de saúde dos países da OCDE, permitindo comparar financiamento, acesso, recursos humanos, resultados em saúde e desafios futuros.

O primeiro tópico em análise é o financiamento. Portugal destaca-se pelo forte peso das despesas diretas das famílias, em particular nos cuidados ambulatórios. Em média, estes cuidados representam 22% das despesas das famílias nos países da OCDE (“out of pocket”). Em Portugal, esse valor sobe para 52%, um dos mais elevados da OCDE, a par da Bélgica e da Itália. Apenas cerca de 60% da despesa total em saúde é coberta por financiamento público, ficando bem abaixo da média da OCDE, que ronda os 75%. Este nível de partilha de custos afeta diretamente o acesso aos cuidados e ajuda a explicar o recurso crescente ao setor privado.

Os dados mostram um reforço significativo do papel do setor privado, tanto na prestação como no financiamento dos cuidados. Em Portugal, 35% da população tem seguro de saúde, sobretudo de carácter duplicativo, usado para ganhar rapidez ou como alternativa ao SNS. Entre 2013 e 2023, verificou-se um aumento expressivo deste tipo de seguro, associado a dificuldades de acesso no sistema público. Os cuidados ambulatórios representam cerca de 45% de toda a despesa em saúde em Portugal, face a uma média da OCDE de 33%.

Embora o relatório reconheça a importância crescente dos prestadores privados, evidencia também uma limitação relevante: muitos dados da OCDE excluem hospitais privados, quer em equipamentos como TAC, RM e PET, quer em exames e cirurgias, o que reduz a comparabilidade e a transparência do sistema como um todo.

Um dos pontos mais críticos para Portugal é o baixo investimento em prevenção. Em 2023, cerca de 2% da despesa corrente em saúde foi dedicada à prevenção, quando a média da OCDE ronda os 3%, havendo vários países a investir entre 5% e 10%. Apesar do consenso de que cuidados de saúde primários fortes reduzem hospitalizações evitáveis e custos futuros, o relatório indica que esse potencial continua longe de ser plenamente concretizado, incluindo em Portugal.

Ao nível demográfico, Portugal está, evidentemente, entre os países com envelhecimento mais rápido da população. Até 2050, mais de um terço da população terá 65 ou mais anos e mais de 12% poderá ter 80 ou mais anos. Este cenário aumenta a procura por cuidados continuados, gestão da doença crónica e respostas integradas – áreas onde o sistema já enfrenta constrangimentos.

Portugal apresenta um paradoxo relevante: a esperança média de vida é de 82,5 anos, uma das mais elevadas da OCDE; no entanto, 12% da população considera estar em mau estado de saúde, um valor elevado em comparação internacional. Este padrão é comum a países como Japão, Coreia e Portugal: vive-se mais, mas com mais anos em pior estado de saúde, especialmente entre as mulheres.

Na edição de 2025, destaca-se também um forte diferencial de género. As mulheres vivem mais, mas reportam pior saúde, refletindo desigualdades no acesso aos cuidados, diferenças na perceção da saúde e maior prevalência de doenças crónicas.

Portugal destaca-se pelo uso intensivo de exames de diagnóstico, estando entre os países com maior utilização de TAC, RM e PET, com mais de 370 exames por 1 000 habitantes. No entanto, os dados do relatório incluem apenas equipamentos instalados em hospitais, excluindo o setor ambulatório e privado.

Por fim, na área da digitalização, há progressos claros. Portugal foi um dos países com maior aumento no acesso a registos clínicos eletrónicos desde 2022. Ainda assim, a interoperabilidade dos sistemas continua a ser um desafio organizacional e de governação, limitando ganhos de eficiência e o uso de inteligência artificial e de análise avançada de dados.

A principal mensagem do documento é clara: sem reforçar a prevenção, melhorar a articulação entre público e privado e garantir financiamento equitativo, o sistema de saúde português arrisca-se a perder sustentabilidade e equidade.

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