Entrevista a Maria Cerqueira, vencedora do concurso internacional de fotografia 2025
«A minha fotografia lembra que por trás da bata e da máscara há pessoas reais, com limites e emoções»
A enfermeira Maria Cerqueira, do Hospital Santa Maria – Porto, venceu a edição 2025 do concurso internacional de fotografia da APHP e da Federação Brasileira de Hospitais (FBH) com uma foto que valoriza quem cuida. O gosto pela fotografia nasceu da vontade de eternizar instantes, em especial os mais emotivos. Participou no concurso de forma descomprometida e a vitória foi uma boa surpresa… que auxilia o objetivo do retrato: dar voz e visibilidade à dedicação silenciosa dos profissionais de saúde.
- O que representa, para si, ter vencido o concurso internacional de fotografia 2025 da APHP?
É uma honra imensa ver a nossa fotografia ser distinguida como a imagem vencedora do concurso. Esta vitória representa, antes de mais, o reconhecimento de um trabalho coletivo. Para mim, significa dar voz e visibilidade à dedicação silenciosa dos profissionais de saúde e transformar uma fotografia que retrata o contexto hospitalar numa mensagem universal.
- Onde e em que circunstâncias foi captada a fotografia vencedora? Há uma inspiração? Foi o instante retratado?
A fotografia nasceu de um desafio interno do Hospital Santa Maria – Porto para celebrar o Dia do Enfermeiro (12 de maio). Em colaboração com a minha equipa, quisemos retratar um lado menos visível das nossas rotinas: o retirar a máscara. Nesse instante, ao sair de um quarto de isolamento, deixa-se de lado a imagem de “herói” e surge o rosto humano, marcado pelo cansaço, pela exaustão e pela vulnerabilidade que fazem parte do nosso dia a dia.
- Qual a mensagem que pretendeu transmitir através desta fotografia?
A mensagem central é que cuidar exige esforço, entrega e também fragilidade. Os enfermeiros não são super-heróis incansáveis, mas pessoas reais que sentem, sofrem, acreditam e encontram forças no espírito de equipa e, muitas vezes, também na fé. Muitas vezes abdicam de cuidar de si próprios e dos seus para cuidar dos outros.
- Partiu para o desafio com o objetivo de transmitir o espírito cristão do Hospital Santa Maria – Porto?
Não foi uma intenção inicial, mas a fotografia ganhou naturalmente essa dimensão. A presença da imagem religiosa que realmente se encontra no hospital e a numeração dos quartos (212 e 213), que evocam simbolicamente o “13 de maio”, trouxeram uma leitura sagrada e muito portuguesa, onde a fé se cruza com a profissão de cuidar. Remete à fé que tantas vezes sustenta a nossa profissão.
- De que forma a sua fotografia pode contribuir para uma reflexão sobre o papel dos hospitais privados na sociedade? Ou para a promoção de uma visão mais humana da saúde e dos seus profissionais?
Acredito que esta imagem mostra que, independentemente do contexto, público ou privado, a essência é sempre a mesma: cuidar de pessoas. A minha fotografia revela a humanidade dos profissionais de saúde — o cansaço, a entrega, a vulnerabilidade — e lembra que por trás da bata e da máscara há pessoas reais, com limites e emoções. É um apelo a uma visão mais consciente e empática da saúde, que valorize não só quem é cuidado, mas também quem cuida.
- Esperava vencer o concurso quando submeteu o seu trabalho?
De forma alguma. A fotografia foi inicialmente pensada para um concurso interno do hospital onde exerço a minha prática profissional. A participação no concurso internacional surgiu quase como uma extensão natural, sem grandes expectativas. Por isso, o reconhecimento foi recebido com enorme surpresa e gratidão.
- O que a motivou a participar neste concurso da APHP?
A motivação foi a vontade de partilhar o olhar coletivo da nossa equipa, mostrando um retrato autêntico da enfermagem e do dia a dia hospitalar. Vi no concurso uma oportunidade de dar mais alcance a uma mensagem que nasceu no seio do hospital, mas que pode falar a todos.
- Como nasceu o gosto pela fotografia?
O gosto pela fotografia nasceu da vontade de captar emoções, de eternizar instantes que, de outra forma, se perderiam. Mais do que registar imagens, a fotografia sempre foi para mim uma forma de contar histórias e de dar sentido e beleza a pequenos sinais que muitas vezes passam despercebidos.
- Este prémio influencia a forma como encara o seu trabalho fotográfico?
Sim. Este prémio reforça a convicção de que a fotografia pode ir muito além da estética: pode sensibilizar, emocionar e provocar reflexão. Dá-me motivação para continuar a explorar esta linguagem, sempre com propósito e autenticidade.

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