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05/2026

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O segundo painel dos Encontros Clínicos promovidos pela APHP, a 8 de maio, no hospital Trofa Saúde Gaia, colocou em debate um dos maiores desafios da oncologia contempo-rânea: a sustentabilidade do sistema perante a crescente complexidade terapêutica e o aumento exponencial dos custos associados ao tratamento do cancro.

Sob o tema “A sustentabilidade é possível?”, a sessão reuniu o diretor de operações de on-cologia da Joaquim Chaves Saúde, Guy Vieira, o coordenador da área médica da Multicare, José António Santos, e a diretora da Direção de Informação e Planeamento Estratégico do Infarmed, Cláudia Furtado, num debate em torno do equilíbrio entre inovação, acesso e ca-pacidade financeira do sistema de saúde.

Na abertura da sessão, os moderadores, Miguel Barbosa, oncologista da Lusíadas Porto, e Bruno Silva, da comissão executiva da Trofa Saúde, sublinharam que a sustentabilidade em oncologia não pode ser vista apenas sob uma perspetiva financeira, mas também deve ter em conta a forma como os percursos assistenciais são organizados, como se tomam de-cisões clínicas e como se mede valor em saúde. A necessidade de uma resposta integrada entre reguladores, financiadores e prestadores foi apontada como essencial para garantir continuidade e qualidade dos cuidados.

Guy Vieira centrou a sua intervenção na realidade da radioterapia em Portugal, defendendo que a sustentabilidade passa inevitavelmente pela organização territorial da resposta onco-lógica e pela redução das desigualdades no acesso. O especialista recordou que a radiotera-pia vive uma evolução tecnológica acelerada, com equipamentos cada vez mais sofisticados e precisos, mas também mais exigentes em termos de investimento, consumo energético e infraestruturas técnicas.

“O sonho seria tratar apenas o tumor, sem qualquer margem”, afirmou, explicando que toda a evolução tecnológica da radioterapia tem caminhado no sentido de aumentar a precisão terapêutica e reduzir os danos nos tecidos saudáveis. Contudo, alertou para o elevado cus-to associado a esta evolução, desde os próprios aceleradores lineares até às necessidades energéticas, climatização industrial e manutenção altamente especializada.

O responsável chamou ainda a atenção para a distribuição desigual das unidades de radiote-rapia no país, excessivamente concentradas no litoral e nos grandes centros urbanos. Se-gundo os dados apresentados, Portugal deveria dispor de cerca de 77 aceleradores lineares para responder adequadamente às necessidades da população, mas o Serviço Nacional de Saúde conta atualmente com apenas 34 equipamentos. “Se apenas nos cingíssemos ao SNS, cada acelerador teria de tratar mais do dobro do número recomendado de doentes”, alertou.

Guy Vieira defendeu uma maior articulação entre setor público e privado, sublinhando que a criação de redes de referenciação de proximidade poderia melhorar o acesso e reduzir desigualdades regionais. Destacou também o papel central das equipas multidisciplinares na tomada de decisão terapêutica e na racionalização dos recursos, considerando que a coordenação entre diferentes especialidades será decisiva para a sustentabilidade futura da oncologia.

Entre as soluções apontadas esteve ainda a aposta no hipofracionamento em radioterapia, estratégia que permite administrar doses mais elevadas em menos sessões, reduzindo des-locações, tempo de tratamento e pressão sobre os equipamentos. “Ao diminuirmos o núme-ro de tratamentos, diminuímos também o impacto económico e social associado ao proces-so terapêutico”, explicou.

José António Santos trouxe para o debate a perspetiva das seguradoras e financiadores, alertando para o crescimento “galopante” da despesa em saúde e para o peso crescente da oncologia nos custos dos sistemas de financiamento. O responsável da Multicare recordou que a despesa em saúde cresce acima do Produto Interno Bruto e classificou o fenómeno como “o elefante na sala”.

Segundo os dados apresentados, os doentes oncológicos representam apenas 0,25% da car-teira da seguradora, mas consomem cerca de 10% da despesa total financiada pela Multicare. O custo médio anual de um doente oncológico aumentou de 18 para 25 mil euros em apenas quatro anos, sendo 16 vezes superior ao custo de um cliente sem patologia oncológica.

Os fármacos representam atualmente a maior fatia dos custos oncológicos, absorvendo 43% da despesa, sobretudo devido à imunoterapia. A cirurgia representa cerca de 30%, sen-do que quase um terço corresponde a cirurgia robótica. “Temos inovação extraordinária, mas alguém tem de pagar isto tudo”, resumiu.

Neste contexto, José António Santos defendeu uma mudança de paradigma, em que as seguradoras deixem de ser apenas pagadores e passem a assumir um papel ativo na gestão da saúde, através da prevenção, rastreio precoce e medicina personalizada. Entre as iniciati-vas apresentadas destacou-se um programa de rastreio personalizado do cancro da mama, destinado a mulheres a partir dos 25 anos, com estratificação de risco e eventual acesso a aconselhamento genético e programas preventivos.

O responsável destacou igualmente a importância do “direito ao esquecimento” para anti-gos doentes oncológicos, defendendo que os seguros de saúde devem evoluir para modelos mais inclusivos e com capitais mais robustos, capazes de responder aos custos crescentes da oncologia moderna.

A fechar o painel, Cláudia Furtado apresentou a visão do Infarmed sobre a evolução da des-pesa farmacêutica e os mecanismos necessários para garantir sustentabilidade no acesso à inovação terapêutica. A responsável revelou que os medicamentos representam atualmen-te cerca de 25% da despesa total do Serviço Nacional de Saúde, sendo a oncologia a área terapêutica com maior peso financeiro, ultrapassando os 800 milhões de euros anuais.

A diretora do Infarmed destacou que o crescimento da despesa resulta não apenas do au-mento do número de doentes e da maior sobrevivência, mas também da utilização de tera-pêuticas inovadoras de elevado custo e da combinação simultânea de vários medicamentos inovadores.

“Um em cada três novos medicamentos aprovados é para a área da oncologia”, referiu, ad-mitindo que a pressão financeira deverá continuar a aumentar nos próximos anos. Ainda assim, considerou que a sustentabilidade é possível “mas com rigor”.

Entre os instrumentos apresentados estiveram os processos de avaliação de tecnologias de saúde, os contratos de financiamento condicionados a resultados clínicos, os acordos de partilha de risco e a promoção do uso racional do medicamento. Cláudia Furtado destacou ainda o papel dos biossimilares na redução da despesa sem perda de eficácia terapêutica, considerando esta uma das áreas com maior potencial de eficiência para o sistema.

A responsável sublinhou também que o financiamento público da inovação deve estar asso-ciado a demonstração efetiva de valor terapêutico acrescentado. “Há que introduzir a ino-vação que de facto acrescenta valor”, afirmou, defendendo maior rigor na avaliação clínica, económica e na utilização adequada das terapêuticas disponíveis.

Foi evidente o consenso entre os intervenientes: a sustentabilidade da oncologia não de-pende apenas de financiamento, mas de organização, prevenção, coordenação entre setores e capacidade de avaliar valor em saúde. A inovação continuará a avançar, mas a sobrevivên-cia dos sistemas dependerá da forma como essa inovação for integrada de forma racional, equitativa e eficiente.

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