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Newsletter da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada
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05/2026
Hospitais Privados
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Os avanços da medicina de precisão, a crescente sofisticação tecnológica e a necessidade de reorganizar os sistemas de saúde marcaram o painel “Avanços Terapêuticos e Novas Perspetivas”, integrado nos Encontros Clínicos promovidos pela APHP, no dia 8 de maio, no hospital Trofa Saúde Gaia.
Moderado por Luis Grangeia, coordenador da Oncologia da Luz Saúde Porto e por Fernando Costa, diretor clínico da Atrys, o painel reuniu intervenções de José Passos Coelho, coorde-nador de oncologia da Luz Saúde Lisboa, de José Dinis, coordenador do Registo Oncológico Nacional, e de Isabel Fernandes, coordenadora de oncologia médica do Clusters CUF Des-cobertas, que traçaram um retrato de uma oncologia em profunda transformação científica, tecnológica e organizacional. Na abertura da sessão, os moderadores destacaram quatro tendências estruturantes: o crescimento dos fármacos biológicos e terapias avançadas, a in-corporação de novas tecnologias de diagnóstico e tratamento, o impacto crescente da inteli-gência artificial e o desafio demográfico associado ao envelhecimento e à multimorbilidade.
Cancro: doença cada vez mais prevalente numa sociedade envelhecida
Na sua intervenção, José Passos Coelho classificou a doença oncológica como um dos maio-res desafios de saúde pública das próximas décadas. Citando dados epidemiológicos nacio-nais e internacionais, alertou para a aproximação entre a mortalidade por cancro e a mor-talidade cardiovascular, tendência impulsionada pelo aumento da esperança média de vida. Segundo o especialista, a probabilidade de um homem desenvolver cancro ao longo da vida poderá atingir “um em cada dois”, enquanto nas mulheres poderá chegar a “uma em cada três”. Paralelamente, estimativas internacionais apontam para um aumento de cerca de 50% nas necessidades globais de cirurgias oncológicas e tratamentos de quimioterapia até 2040-2050.
O especialista do Hospital da Luz Lisboa salientou que a grande revolução dos últimos anos resulta da compreensão molecular da doença. “Deixámos de ter um único cancro da mama ou um único cancro do pulmão. Hoje sabemos que existem múltiplas doenças dentro da mesma doença”, afirmou. Grande parte da apresentação incidiu sobre a medicina de preci-são e a evolução das técnicas de caracterização molecular dos tumores. O desenvolvimento do sequenciamento genético de nova geração (NGS) permite hoje identificar alterações específicas e associá-las a terapêuticas dirigidas. A medicina de precisão está a mudar, diz, o paradigma terapêutico.
“A organização conta tanto quanto a última droga”
Já José Dinis centrou a sua intervenção na reorganização europeia da oncologia e no papel estratégico da qualidade organizacional. O antigo diretor do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas destacou o impacto do European Beating Cancer Plan, lançado pela Comissão Europeia com um investimento superior a quatro mil milhões de euros. Segundo o especialista, a Europa está a caminhar para um modelo de certificação oncológica comum, baseado em redes integradas e centros compreensivos de cancro.
José Dinis apresentou o modelo alemão de certificação, que integra hospitais públicos e privados em redes colaborativas altamente auditadas. “A organização conta tanto quanto a última droga”, afirmou, mostrando dados que associam centros certificados a melhores taxas de sobrevivência. Entre os elementos considerados essenciais estão equipas multidisciplina-res, plataformas digitais comuns, tumor boards, cumprimento rigoroso de tempos clínicos, investigação clínica e gestores dedicados ao acompanhamento integral do doente oncológi-co. O especialista defendeu ainda que Portugal deve aproveitar o atual movimento europeu para reforçar a integração entre setores público e privado, sublinhando que “os países que estiverem mais preparados irão captar mais financiamento e mais projetos europeus”.
Estratégia Nacional de Luta Contra o Cancro abre oportunidades ao privado
Na última intervenção, Isabel Fernandes abordou as oportunidades para o setor privado no âmbito da Estratégia Nacional de Luta Contra o Cancro 2021-2030.
A coordenadora de oncologia médica da CUF defendeu que a estratégia deve ser entendida como um projeto coletivo, envolvendo Estado, setor privado, academia e sociedade civil. “A estratégia não é do Ministério da Saúde. É de todos nós”, afirmou. A especialista destacou áreas onde os privados poderão ter um papel relevante, nomeadamente prevenção, ces-sação tabágica, imagiologia avançada, diagnóstico molecular, anatomia patológica digital, radioterapia, rastreios, cuidados paliativos, reabilitação oncológica e investigação clínica.
Isabel Fernandes alertou também para a necessidade de acreditação dos centros onco-lógicos privados, defendendo que a certificação será decisiva para atrair ensaios clínicos, inovação e reconhecimento internacional. “Quem não pensar em acreditação vai perder o comboio”, afirmou. Outro dos desafios apontados foi a necessidade de melhorar os sistemas nacionais de informação clínica e partilha de dados, incluindo o reforço do Registo Oncoló-gico Nacional, considerado essencial para investigação, monitorização de resultados e pla-neamento de políticas de saúde.
Inteligência artificial, inovação e sustentabilidade financeira
Ao longo do painel, foi recorrente a ideia de que os avanços terapêuticos colocam simulta-neamente desafios financeiros e organizacionais aos sistemas de saúde. Os oradores aler-taram para os custos crescentes dos diagnósticos moleculares, terapias inovadoras e novas infraestruturas tecnológicas. Ainda assim, prevaleceu uma visão otimista quanto ao futuro da oncologia, sustentada pela combinação entre inovação científica, inteligência artificial, medicina personalizada e novos modelos de organização clínica. A sessão terminou com um apelo à colaboração entre instituições públicas e privadas, numa lógica de rede e comple-mentaridade, para responder ao crescimento previsto da doença oncológica nas próximas décadas.
Razões para um encontro clínico sobre oncologia
Os Encontros Clínicos da APHP arrancaram com uma forte reflexão sobre o futuro da onco-logia, a sustentabilidade do sistema de saúde e o papel crescente da hospitalização privada na resposta clínica em Portugal.
Na sessão de abertura, o presidente do Conselho Clínico da APHP, professor José Roquette, destacou que a escolha da oncologia para o primeiro encontro clínico não foi casual, mas an-tes reflexo da relevância científica, clínica e económica da área. “Falar de custos em oncolo-gia não é apenas falar de números, é falar numa perspetiva gestionária de sustentabilidade dos sistemas de saúde, de equidade no acesso aos cuidados e de decisões clínicas comple-xas”, afirmou.
Já o presidente do Conselho Regional do Norte da Ordem dos Médicos, professor José Torres Costa, destacou a transformação profunda do setor privado da saúde nas últimas décadas, salientando que a escolha da oncologia como tema central dos encontros revela precisamente a maturidade atingida pela hospitalização privada. “Não há área mais difícil de trabalhar do que esta”, afirmou, elogiando a evolução dos privados na capacidade de articu-lação multidisciplinar.
Por sua vez, o presidente da APHP, Oscar Gaspar, destacou a importância do Conselho Clínico da associação na aproximação entre gestão e prática médica, considerando que os encontros clínicos representam um espaço privilegiado de reflexão sobre os desafios atuais da saúde.
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