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05/2026

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Nesta edição número 100 da Feedback, decidimos recuperar aquela que permanece como uma das histórias mais impactantes em 10 anos: a do enfermeiro sul-coreano Oh Young--jun, profissional dos cuidados intensivos que transformou os corredores de isolamento da pandemia em desenhos profundamente humanos e emocionais, mais tarde cedidos à APHP como testemunho visual de um dos períodos mais duros da história recente da saú-de mundial.

Em plena pandemia de Covid-19, enquanto o mundo acompanhava diariamente números de infeções, internamentos e mortes, Oh Young-jun escolheu mostrar aquilo que as estatísticas nunca conseguiram revelar: o silêncio exausto dos profissionais de saúde, os gestos invisí-veis da enfermagem e a humanidade escondida por detrás dos equipamentos de proteção individual.

Enfermeiro de cuidados intensivos num hospital de Incheon, na Coreia do Sul, Oh vivia dias e noites dentro das enfermarias de isolamento destinadas aos doentes infetados pelo coro-navírus. Vestido com fatos de proteção integral, máscaras N95, viseiras e múltiplas camadas de luvas, enfrentava jornadas longas e emocionalmente devastadoras. Mas, quando regres-sava ao isolamento do seu apartamento, pegava numa caneta digital e desenhava.

Os seus trabalhos rapidamente começaram a circular nas redes sociais e a conquistar profis-sionais de saúde em vários países. Não eram ilustrações heroicas nem retratos épicos. Eram cenas íntimas, quase silenciosas: uma enfermeira adormecida numa cadeira após horas de trabalho; mãos feridas pelo uso contínuo do equipamento de proteção; um colega a trans-portar baldes de resíduos biológicos; ou o instante de tensão em que uma pequena rutura numa luva fazia temer o contágio.

Nos desenhos de Oh, a cor surgia raramente. Muitas vezes apenas nos olhos dos profis-sionais, visíveis entre a máscara e a viseira. Era que residia toda a humanidade daqueles rostos anónimos.

A história ganhou ainda maior força porque nascia de dentro da própria realidade hospita-lar. Oh não desenhava aquilo que imaginava. Desenhava aquilo que vivia. Entre os pacientes que acompanhou estavam uma mulher de 93 anos com demência e um homem com insufi-ciência renal crónica que fazia diálise 25 anos antes de contrair Covid-19. Ambos sobre-viveram, graças ao trabalho contínuo das equipas médicas e de enfermagem.

A relação de Oh com a arte é muito anterior à pandemia. Gosta de desenhar desde criança e estudou pintura coreana tradicional com especialização em paisagens, formação que aban-donou ao perceber as dificuldades de construir carreira como artista. Inspirado por Floren-ce Nightingale, optou pela enfermagem. Ainda assim, nunca deixou de desenhar.

No final do ano de 2020, em função da necessidade de ilustrar a vida hospitalar durante a pandemia, a APHP encontrou os seus desenhos na MSJC Art Gallery (https://msjc.edu/artgallery/Sketches-from-the-ICU-by-Oh-Young-Jun.html), de São Jacinto Pasadena, nos Estados Unidos da América.

A sua extraordinária capacidade de revelar a dimensão humana da enfermagem levou a APHP a destacar, na altura, o trabalho do enfermeiro-artista. Os desenhos foram cedidos à associação e apresentados como um poderoso documento visual sobre os bastidores da pandemia e sobre o papel dos profissionais de saúde na linha da frente.

Hoje, ao revisitar esta história na edição 100 da Feedback, a APHP recupera não apenas uma memória da pandemia, mas também um símbolo de resiliência, humanidade e dedica-ção profissional. Porque, enquanto o mundo atravessava um dos momentos mais sombrios da sua história recente, Oh Young-jun, hoje com 40 anos de idade, encontrou no desenho uma forma de cuidar, testemunhar e eternizar aquilo que nunca deveria ser esquecido. Obrigado, Oh!

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